O "MONSTRO" EM ITAÚNA

Durante a ditadura militar brasileira, Itaúna também esteve inserida nos mecanismos de vigilância política do Estado. A série “O ‘Monstro’ em Itaúna”, publicada no blog Itaúna Décadas, investiga, por meio de documentos do DOPS/MG, do Serviço Nacional de Informações (SNI) e de setores militares, como médicos, professores, religiosos, estudantes, lideranças políticas e veículos da imprensa local foram acompanhados pelos órgãos de informação entre 1969 e 1986.

A primeira parte concentra-se na trajetória documental do médico e político Dr. José Simonini Filho, cujo nome aparece reiteradamente nos arquivos da repressão. Os registros revelam a construção de perfis políticos que misturavam informações profissionais, posicionamentos públicos, impressões pessoais e rumores, demonstrando como a suspeita ideológica podia ser incorporada aos documentos oficiais e perpetuada ao longo dos anos.

A segunda parte aprofunda essa investigação, destacando o monitoramento de reuniões políticas, eventos acadêmicos e mobilizações pela redemocratização. Um dos episódios centrais é o impedimento de uma caravana de lideranças itaunenses que pretendia seguir para Brasília, em 1984, para acompanhar a votação da Emenda Dante de Oliveira, conforme registros do SNI e relato publicado pelo Jornal Brexó.

Em conjunto, as duas partes demonstram que a vigilância estatal não se restringia a atividades clandestinas: alcançava também instituições públicas, espaços universitários, imprensa, movimentos estudantis e manifestações políticas legítimas. A documentação permite compreender como o aparato de informação produzia classificações, estabelecia conexões e acompanhava indivíduos mesmo durante a abertura política.

Mais do que reconstruir a trajetória de pessoas monitoradas, a pesquisa evidencia como os mecanismos de vigilância e controle da ditadura se manifestaram no cotidiano de uma cidade do interior mineiro. O título remete à expressão atribuída ao general Golbery do Couto e Silva — “criei um monstro” —, associada à dimensão alcançada pelo aparato de informações do regime.

PARTE 1
PARTE 2

Charles Galvão de Aquino
Historiador — Registro Profissional nº 343/MG