O lamento de Nise Campos diante de uma perda irreparável
Há perdas que ultrapassam a destruição de paredes, torres e telhados. Quando desaparece um lugar que fez parte da vida de uma comunidade, também se perde uma parcela das lembranças que nele permaneceram. Foi essa dimensão da perda que Nise Campos expressou em seu poema dedicado à antiga Matriz de Itaúna, em 1934.
Logo nos primeiros versos, a poeta dirige-se à igreja com uma ternura dolorosa: “Pobre matriz, velha e abandonada!”. A ausência do santo, do sino e do altar revela um templo despojado de seus elementos sagrados, mas não de seu significado. A construção ainda habita a memória de quem a conheceu, e o desejo de voltar a rezar naquele lugar torna o lamento ainda mais íntimo.
As torres, que antes se elevavam em direção ao céu, parecem agora adormecidas. Os sinos se foram, as andorinhas partiram, mas algo permanece: a saudade. É nesse contraste entre o que desapareceu e aquilo que resiste na lembrança que o poema encontra sua força mais comovente.
Na última estrofe, Nise amplia o sentido dessa perda. Ao chamar a Matriz de “Espelho da vida” e “Imagem da minha alma”, a escritora aproxima a história do templo de sua própria experiência interior. A igreja deixa de ser apenas uma construção antiga e passa a representar a passagem do tempo, a fragilidade das coisas e a permanência dos vínculos afetivos.
A repetição do verso “Sem santo, sem sino, sem altar” encerra o poema como um eco de ausência. É uma imagem simples, mas poderosa: tudo aquilo que dava vida ao espaço sagrado desapareceu, enquanto a memória continua a testemunhar sua importância.
Ao recordar a antiga Matriz de Itaúna, Nise Campos transforma a saudade em palavra e a perda em poesia. Seu texto permanece como um convite à reflexão sobre aquilo que o tempo e as transformações da cidade podem apagar da paisagem, mas não necessariamente conseguem extinguir da memória de seus habitantes.
A seguir, o poema de Nise Campos: um testemunho poético da saudade e da ligação profunda entre uma cidade, sua história e seus lugares de afeto.
MATRIZ DE SAT’ANA
Pobre matriz, velha e abandonada!
Sem santo, sem sino, sem altar …
Imagem viva das cousas mortas …
Que vontade tenho de ainda aí rezar …
A vossas torres, que para o azul subiram,
Parecem dormir e querem sonhar …
Foram-se os sinos …. As andorinhas foram …
Mas a saudade ficou. Só saudade! …
Ruína! Tapera! Aniquilamento!
Velhice santa, que se deve amar!
Espelho da vida! Imagem da minha alma,
Sem santo, sem sino, sem altar …
NOTA SOBRE A IMAGEM
A imagem da antiga Matriz de Itaúna foi recriada em estilo fotográfico realista, inspirada na aparência histórica do templo e nas fotografias antigas que registraram sua presença na paisagem urbana da cidade. A composição apresenta dois momentos distintos: à esquerda, a igreja preservada, com suas torres, relógio, cruz e fachada imponente; à direita, o edifício parcialmente demolido, cercado por escombros e estruturas expostas.
A tonalidade sépia, as marcas do tempo e a divisão irregular entre as duas cenas evocam a ruptura provocada pelo desaparecimento de um importante marco da memória religiosa e arquitetônica itaunense.
Nota histórica: trata-se de uma reconstituição ilustrativa produzida por inteligência artificial, inspirada em registros fotográficos da antiga Matriz de Itaúna e em referências históricas sobre sua demolição. A imagem não constitui um documento fotográfico autêntico de todos os detalhes representados, mas uma interpretação visual destinada a valorizar a memória do templo e a reflexão sobre sua perda, tema também presente na produção literária de Nise Campos.
Charles Galvão de Aquino
Historiador — Registro Profissional nº 343/MG

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