A ETERNIDADE QUE PASSA PELOS VERSOS DE NISE CAMPOS
Há sentimentos que atravessam gerações, perguntas que acompanham a humanidade desde os seus primeiros passos e mistérios diante dos quais até os mais sábios se curvam. Entre eles, está o tempo — invisível, soberano e impossível de deter.
É sobre essa força que rege a existência humana que a professora e escritora Nise Campos nos convida a refletir em seu poema “Ode ao Tempo”, uma composição que transforma a passagem dos anos em diálogo, desabafo e profunda meditação sobre a vida.
Com uma linguagem expressiva e um tom de intimidade, a autora personifica o tempo, tratando-o como um velho amigo, poderoso e implacável. Ao saudá-lo, reconhece sua força extraordinária: embora tão antigo que ninguém seja capaz de contar seus anos, ele conserva uma energia sempre jovem, desafiando até mesmo as potências do Universo.
O tempo surge, assim, como um soberano absoluto, diante de quem o homem, apesar de suas conquistas, permanece impotente.
Mas é na relação entre essa grandeza e a fragilidade humana que o poema encontra sua força mais tocante. O tempo passa indiferente aos sorrisos, às dores e às lágrimas. Não se comove com os sentimentos, não atende aos apelos e não interrompe sua marcha para acolher aqueles que desejam prolongar um instante feliz ou adiar uma despedida.
Nise Campos dá voz a uma inquietação universal: por que aquilo que mais desejamos conservar é justamente o que não podemos impedir de passar?
Nos versos finais, a reflexão ganha contornos de súplica. A poeta pede ao tempo que pare por um instante, que escute o que sua alma tem a dizer. É um pedido simples, quase sussurrado, mas carregado de significado.
Afinal, quantas vezes também desejamos deter o relógio para guardar uma lembrança, reviver um encontro, permanecer ao lado de quem amamos ou simplesmente compreender melhor a vida que escapa entre nossos dedos?
A resposta, entretanto, permanece silenciosa. Ano após ano, o pedido se repete, enquanto o tempo prossegue indiferente. A poeta corre para alcançá-lo, mas sabe que, no fim da jornada, será ele próprio quem a fará parar.
Nesse desfecho, a imagem do tempo deixa de ser apenas uma abstração filosófica e se aproxima da condição humana: todos caminhamos sob seu domínio, carregando memórias, esperanças e a consciência de nossa finitude.
“Ode ao Tempo” é, sobretudo, um poema sobre a impossibilidade de vencer aquilo que também torna a vida preciosa.
Se o tempo nos escapa, é justamente porque a existência não se repete indefinidamente. Cada encontro, cada gesto e cada palavra pertencem a um instante que, uma vez passado, só pode permanecer na memória.
Ao escrever sobre o tempo, Nise Campos não fala apenas dos anos que se acumulam, mas da experiência de viver, da urgência de sentir e do desejo humano de ser ouvido diante de uma força que não conhece pausas. Sua poesia nos lembra que talvez não possamos fazer o tempo parar, mas podemos aprender a reconhecer o valor de cada instante antes que ele se transforme em saudade.
Porque o tempo não escuta nossos pedidos. Não espera nossas despedidas. Não volta para corrigir o que ficou para trás.
Ele simplesmente passa. E nós, enquanto podemos, seguimos vivendo, amando, lembrando e escrevendo nossa própria história dentro dele.
“Ode ao Tempo”
Eu te saúdo, tempo amigo,
Pelo teu poder e pela tua força!
És tão velho, tão velhinho,
Que eu não te sei contar os anos! …
E a tua energia é sempre moça,
Desafiando as potências do Universo!
O teu domínio, amigo, é forte e inquebrantável!
Pois que é o único rei a que o homem não venceu!
Deus te pôs como sentinela ao mundo,
Sentinela que corre, que voa e que castiga…
Sob a tua força, tudo passa e tudo morre…
E, indiferente, vais vivendo e vais passando…
Não te retêm nem o sorriso, nem a graça…
Nada te comove: nem a dor, nem o pranto…
Coração, si o tens, amigo, ele é de pedra!
E, si alma tens, ó tempo, ela é de fogo!
Mas espera! Para, um instante só!
Não te cansaste ainda de correr e de voar?
Ouve, ó tempo, o que minha alma fala!
Espera para ouvir-me, porque te chamo amigo…
Eu quero te dizer baixinho alguma coisa
Um minuto só! Espera, que eu te digo! …
Assim eu rogo todo ano ao tempo,
Mas ele nunca parou para me escutar…
Vou andando e vou correndo para ver si o alcanço
E é ele mesmo que um dia há de me fazer parar!
PRIMEIRA NOTA
Nise escreveu esta peça em 1 de janeiro de 1933, época em que o País era varrido pela moda modernista, vinda da Semana de Arte Moderna, com Mário e Oswaldo de Andrade. Nise foi madrinha de uma récita poética em 1981.
Nesta obra, ela faz uma saudação ao tempo, a quem coloca como “o único rei que o homem não venceu”, ressaltando a irreversibilidade do envelhecer.
De sua farta obra, romântica e basicamente só em prosa poética, Nise destacou, para um compêndio de trabalhos seus, que juntou aos de escritores de renome nacional e internacional, como Guilherme de Almeida e Cruz e Souza, entre outros, o belíssimo “Ode ao Tempo”.
Jornal ItaVox, janeiro de 1987, p.7.
SEGUNDA NOTA
SOBRE A RECONSTITUIÇÃO VISUAL
A imagem foi criada com o auxílio de inteligência artificial, tomando como referência fotografias históricas de Nise Álvares da Silva Campos, documentos biográficos e registros de sua produção literária, especialmente o poema Ode ao Tempo, escrito em 1º de janeiro de 1933.
A composição apresenta Nise sentada à mesa, concentrada na escrita, em um ambiente inspirado nos antigos gabinetes de estudo e espaços de trabalho intelectual. O cenário reúne uma mesa de madeira escura, livros de aparência antiga, manuscritos, folhas de papel, tinteiro, pena de escrita, castiçal com vela acesa, estantes repletas de volumes e um globo terrestre. Ao lado da escritora, uma ampulheta simboliza a passagem inexorável do tempo, tema central de sua composição poética.
A iluminação quente, os tons terrosos, as texturas envelhecidas e a atmosfera intimista foram escolhidos para evocar a tradição literária de outros tempos, conferindo à cena um caráter contemplativo e atemporal. O título ODE AO TEMPO, destacado na imagem, estabelece a ligação entre a representação visual e a reflexão poética de Nise sobre a força, a continuidade e a inevitabilidade do tempo.
Trata-se de uma reconstituição artística e ilustrativa, inspirada em referências documentais e fotográficas, e não de um registro autêntico de Nise escrevendo o poema naquele ambiente. O cenário foi concebido artisticamente para homenagear sua trajetória como professora e escritora e aproximar o público de seu universo intelectual e literário.
Charles Galvão de Aquino
Historiador — Registro Profissional nº 343/MG

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